
HOMENAGEM AO LINDOLF BELL
DE BABY E RUBENS JARDIM:
"Não vim aqui para vos bajular/Contar piadas picantes/ou cantar canções de amor adolescentes./Não venho aqui para vos fazer cócegas na alma/ou na planta dos pés/tampouco trazer-vos os lírios do campo./Venho para dizer-vos como se diz para irmãos/ao redor de uma fogueira ou de uma mesa:/ou a gente mete uma bala na cabeça/ou fica no redemoinho vital/para dizer e denunciar./Alegra-te cidade, terra e mar./Alegra-te campo de amor./Alegra-te que a poesia é canto,/ainda é canto,/e é grito, ainda é grito,/e o poeta vai a praça/levando um povo pelas mãos/e um coração na grande vontade de amar."
Este é um poema de Lindolf Bell que serviu de abertura para inúmeros recitais e leituras de nosso grupo: a Catequese Poética. E através dele, sempre foi possível sentir, a intenção e o desejo do Bell e de cada um de nós, em reconduzir o poema aos limites amplos da pessoa, da praça, da comunidade. O poema é o dilema. O poeta é o que projeta: palavras arrancadas de um dicionário cardíaco. Contaminado coração. Contagiada palavra por usos, abusos e lambuzados corpos e sonhos infantis. E tudo situado nesse real lugar onde se desdobram os sinais e as sinas de atlânticos e pacíficos. Como é possível capturar a abrangência deste instante, de celebração e de homenagem a um poeta morto, se nós sabemos que quando um poeta morre todos nós morremos também.... - "Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste. Sou poeta....".... E o que é o poeta senão essa criatura sem equivalência, a transbordar de seus limites humanos, em vício ou virtude, a exceder a multidão que o contempla ou não contempla, entende ou não entende, combate ou glorifica. Mas não pode deixar de saber que está presente. Que é o poeta senão o ouvido que melhor ouve o apagado e esquecido e recolhe a sua informulada queixa e seu cântico longínquo? Sem ser Deus, nem profeta, nem sábio, mas tudo isso, imperfeita e amargamente, porque é apenas um poeta. E poeta é mesmo assim: múltiplo, complexo, contraditório, solitário e plural, humilde megalômano, desgraçado feliz, audaz e tímido, antinômico, poliedro de cristal com uma luz diferente em cada aresta. Ninguém escreveu com tanto sangue e com tanta fraternidade como Bell. E como são cada vez mais raros os poetas que são poetas 24 horas por dia! E ele foi assim naturalmente, espontaneamente. Corria pra me ver no Jornal Diário de São Paulo onde eu assinava coluna diaria com nome "de gente´s e outras" e ficava poetando ao meu lado até sairmos pras praças da vida e com Plínio Marcos, Rubens Jardim, e tantos outros que nos esperam lá em cima, gritarmos o que estava parado na garganta. Me fez publicar meu livro de poemas "23 Canções de Minha terra Interior" onde rasguei o peito pra dizer da verdade contida e me reergui entre prantos e cantos. Que tempo bom Rubens Jardim, querido e amado poeta ainda vivo pra contar tantas coisas importantes; ou Bell, Plinio, tantos que se foram e permanecem em nossas veias. É raro sim alguém amar os amigos de pés no chão e mais raro ainda alguém reconhecer que foi a criança sem ciranda que acreditou numa igualdade total. Da tua reivindicação da nossa morte natural e lírica sem nenhuma das abomináveis presenças:.... Pouca gente ainda acredita que a poesia é terrível soerguimento, necessidade atávica e concreta de todo ser humano. Disseste em um poema que "quase chegar é sempre perder a hora e encontrar o fruto seco de tanto esperar."
Eu só quero te dizer isso: que saudades você deixou poeta. Dói. Como dói!
“ É MISTER QUE O AMOR SEJA CRUEL / CLARO É O QUE É CLARO. / TUDO PARECE SIMPLES / QUANDO NÃO EXIGIMOS MUITO. OS OLHOS QUANDO SE JUNTAM, / NÃO SE JUNTAM, ACASO, / COMO RIOS FORA DE TODOS OS CURSOS? / ANTES, MUITAS SORTES HABITAVAM-TE / COMO LAMPADAS ACESAS. / E,SE HOJE, A PENUMBRA SOBREVÉM, / AS MÃOS SE JUNCAM COMO TREPADEIRAS, / E O VÍNCULO DO AMOR / PERMANECE UMA LINGUAGEM,
SABE-SE MELHOR, / QUE AQUELES QUE PASSAM / SÃO AQUELES QUE FICAM MAIS FUNDO EM NÓS.**
* trechos de 2 poemas de Cecília Meireles montados por rubens jardim.
**poema de Lindolf Bell.