O QUE A HISTÓRIA DE PORTUGAL NÃO CONTA
Jerônimo Münzer, médico alemão que visitou a côrte em Évora, no ano de 1494, escreveu no seu "ITINERÁRIO" que « o Rei tem na corte muitos filhos dos senhores da Etiópia, que são educados nos nossos costumes e na nossa religião.» assim se referindo aos bolseiros (bolsistas, no português do Brasil) africanos, nobres oriundos do Reino do Congo (e não só deste). Importante para a compreensão da LUSOLOGIA ( estudo científico do lusismo, um neologismo cuja aceitação é mister estimular e reconhecer como ramo do conhecimento que envolve todos os aspectos relacionados com o estudo dos fenômenos históricos, antropológicos, linguísticos, sociológicos e culturais em sentido amplo, concernentes aos povos da comunidade lusófona) que PORTUGAL EM LINHA fomenta acima de todas as coisas, encontra-se nesta passagem do supra-citado carnet de route do Dr.Münzer:- «O rei possui negros de várias cores, acobreados, pretos e anegrados, e de línguas diferentes, conhecendo, porém, todos a língua portugueas; servindo-se dos seus intérpretes, percorre quase toda a Etiópia e obtém continuamente pelos seus presentes a protecção dos reis mais importantes, pois não é possível submetê-los, e, mesmo que os submetesse, pouco proveito tiraria disso. Há em Lisboa muitíssimos homens e marinheiros que se empregam nesta navegação para a Etiópia e é verdadeiramente extraordinária a quantidade de escravos negros e acobreados que nessa cidade existem. Aqueles que são das cercanias dos trópicos de Câncer e Capricórnio são acobreados, e aqueles que são das regiões equatoriais são negros retintos.».
Se a aventura das navegações provocou o êxodo rural, continuavam porém a aumentar em cidades e vilas, grandes contingentes de desempregados . Logo, o motivo da substituição do jornaleiro livre pelos escravos, em particular no Alentejo, não poderia ser a falta de gente em Portugal mas sim, o regime da grande propriedade, do latifúndio, que imperava no Alentejo e se arrastaria por centenas de anos. Só com a derrubada do chamado Regime do Estado Novo, a 25 de Abril de 1974, essa anacrônica e vergonhosa injustiça socioeconômica encontrou seu epílogo, o que podemos atribuir ao aspecto positivo, único, do despertar de consciências provocado pelos desmandos irracionais e pueris dos inconseqüentes, por incultos e impreparados, "capitães dos cravos...vermelhos". Até então, a grande propriedade alentejana estivera sempre arrendada pela nobreza senhorial a lavradores que, face ao aumento do preço das jornadas, preferiam reduzir a área cultivada, ficando assim em permanente pousio a maior parte das terras... Daí ser o Alentejo o alfôbre mais significativo de militantes do Partido Comunista Português, que somente teve em toda a sua peregrina e corajosa actividade clandestina, enquanto fora da lei, três aspectos para nós inaceitáveis:
1) Ter como secretário- geral um burguês, Álvaro Cunhal, alentejano ao que parece filho de grande proprietário, e não um verdadeiro proletário, que decerto por vaidade burguesa, com a ajuda de Salazar (que lhe permitia frequentar as aulas na Faculdade), até se formou em Direito enquanto esteve na cadeia;
2) Seu estalinismo e seu leninismo de obediência ao Kremlin, ambos incompatíveis com ortodoxadoutrina socialista de Karl Marx e Friederich Engels, levada a extremos, por nós cultuados, pelo incomparável e corajoso Trotski, defensor do anarquismo;
3) Utilizar linguagem e métodos intolerantes, agressivos e radicais para difusão, aliás selectiva, da sua doutrina simplista, esquecendo que o socialismo-científico visa a implantação de uma sociedade sem classes, mas não pré-industrial, que deve se apropriar, sem luta armada, de meios de produção pré-existentes em mãos de uma sociedade capitalista decadente e em necrose.
É mister dizer-se que quase todo o Alentejo estava ocupado pelo Bispo e Cabido de Évora - como sempre a Igreja Católica se aproveitando e extorquindo proventos às custas do nome de Cristo...- e por cavaleiros dos mestres das Ordens de Avis e Santiago. A exploração do trabalho escravo facultou a manutenção desse estado de coisas em proveito dos arrendatários. Os lavradores preferiam os negros africanos, porque não estes não tinham direitos, eram definidos como res (coisas)... A partir do século XVI o valor de compra do escravo caíu muito: o escravo que anteriormente custava 45 ou 50 mil Réis, passou a custar 12 mil Réis... De 1497 a 1527 navegaram para a Índia 320 naus levando cada uma, em média, 250 homens, o que equivalia, no referido período, a uma saída de 80 mil homens do mercado de trabalho português. Desses, apenas 10% regressariam a Portugal... Contudo, a agricultura continuava a crescer, graças ao trabalho escravo dos negros da África. Decorridos 200 anos de utilização incessante dessa mão-de-obra, de meados do século XV até à segunda metade do século XVII, fixou-se e estabilizou-se o trabalho escravo em certas áreas do mundo agrícola lusitano, declinando, porém, no século XVIII, em virtude da gradual redução havida no ritmo da substituição desse tipo específico de trabalho, segundo cálculos feitos por Costa Lobo. Mas, mesmo em declínio, não cessou de existir, « alimentado pela circunstância cruel de o filho de escravos herdar a condição dos pais, e, assim, quando em 1761 o Alvará de 19 de Setembro, providenciado pelo marquês de Pombal, determina o fim da entrada de escravos em Portugal, apenas nas províncias transtaganas ainda trabalham nos campos nada menos de 4000 a 5000 escravos.»
De Costa Lobo: - «O próprio texto do Alvará de Libertação, aliás, servia para demonstrar que, se foram razões de ordem econômica as responsáveis pela expansão do trabalho escravo na agricultura portuguesa, ia ser também um motivo econômico o que determinaria a sua extinção, 300 anos depois: com a exploração do ouro brasileiro das Minas Gerais a exigir cada vez maior número de escravos, o desvio desse tipo de mão-de-obra para território português constituía um desfalque na conquista da riqueza mais rápida, pela via colonial. E era exactamente isso o que deixava claro o texto do Alvará quando lembrava que, por aquela segunda metade do século XVIII, além de não mais contribuir de forma decisiva para a economia agrícola no continente, o trabalho escravo só servia, em Portugal, para agravar os problemas das cidades.»
Destacamos: a exploração do trabalho escravo na agricultura portuguesa continuaria a verificar-se em algumas regiões ainda por muitos anos, embora de forma dissimulada, numa persistente e desrespeitosa rebeldia em relação à resolução pombalina sancionada pelo rei Dom José I. Conforme cita Edmundo Correia Lopes in " A Escravatura - Subsídios para a Sua História ", referindo-se à Provisão de 16 de Junho de 1773, o poder real era obrigado a reiterar o Alvará de 12 anos antes, porque muitos proprietários de escravos, não desejando perder o capital aplicado na compra das suas máquinas de produzir trabalho, continuavam a explorá-las clandestinamente. De fato, a Provisão de 1773, invocando ainda uma vez mais o Alvará de 1761, dizia haver informação de que «em todo o reino no Algarve e em algumas províncias de Portugal existem ainda pessoas [...] que guardam em suas casas escravas, humas mais brancas qelles com nomes de Pretas e Negras, ou Mestiças, e outras verdadeiramente negras para pela reprehensível prática perpetuarem os Captiveiros.» O historiador Costa Lobo observa, indo fundo na ironia contida no texto legal do século XVIII: «A pigmentação ainda hoje seria uma denúncia. Mas que importância se lhe pode dar?»
Em 1551 Cristóvão Rodrigues de Oliveira procedeu a um levantamento pelo qual concluiu que, naquele meado do citado século, a capital lusitana contava com uma população de 100 000 habitantes, assim se confirmando a informação de Damião de Góis que atribuía à cidade 20 000 edificações, incluindo-se nesse total os escravos: «Nestes dezoito mil vezinhos há Cem mil almas, entrando nisso Nove mil E novecentos E concoenta escravos.» O humanista Frei Nicolau Clenardo, da Flandres, que viveu em Portugal cerca de 5 anos, de 1533 a 1538, escreveu: «dificilmente se encontrará uma casa, onde não haja pelos menos uma escrava destas», conquanto se limitasse a existência de apenas um escravo ao serviço de 30% das 18 000 famílias que deviam viver então na capital portuguesa.
Merece ser lido e interpretado o Auto da Índia de Gil Vicente, farsa representada em 1509, que o Professor Doutor Luís de Matos cita na "sebenta" (apostila, no Brasil) de História da Expansão da Cultura Portuguesa no Mundo (ISCSPU/UTL, 1963) do nosso curso Complementar de Estudos Ultramarinos, pós-graduação stricto sensu, páginas 28, na seguinte passagem: "O marido já está no Restelo e a mulher não esconde a sua satisfação por se ver desembaraçada dele. A sua alegria não dura porém muito tempo, porque lhe vêm dizer que seu marido não partirá. Mas este acabará por seguir viagem e logo a mulher, "moça e fermosa", começa a atraiçoar o marido. Agrada-lhe a nova vida que leva e está convencida de que o marido não regressará. O pior é que o marido regressou ao fim de três anos, com grande cólera da mulher. Cólera que ela naturalmente esconde, dizendo-lhe cìnicamente. Luís de Matos continua: "Depois, a prolongada ausência do marido foi inteiramente preenchida com lágrimas, orações e jejuns; morta de saudades, fechara-se a sete chaves em casa, para que ninguém pudesse bulir com a sua "honestidade"; uma esposa "modelo".
Com a devida vénia, transcrevemos de Os Negros em Portugal - Uma Presença Silenciosa, de Tinhorão, páginas 126, as seguintes passagens para reflexão de quem ler estas linhas: "Surpreendentemente, porém, a santa de maior devoção dos negros, desde o estabelecimento de suas primeiras irmandades, a partir do século XVII (referíamo-nos apenas ao Brasil) foi Nossa Senhora do Rosário, que era branca e aparecia sempre figurada tendo sobre a cabeça uma coroa distintiva da sua condição de Raínha do Céu./ Até hoje, mais de trezentos anos passados dessa devoção, ninguém se preocupou em encontrar uma explicação para essa escolha, que à primeira vista poderia indicar uma aceitação subsconsciente da superioridade da raça branca, representada simultaneamente pelo facto de Nossa Senhora do Rosário ser branca e ostentar sobre a cabeça o signo da realeza./ Quando se verifica, porém, que os negros foram bastante subtis para disfarçar, por exemplo, sob a veneração de São Cosme e de São Damião, o culto dos ibegi ou ibegê (os gêmeos que, através da imagem do parto duplo, representam o culto ancestral da fertilidade), a escolha não parece aleatória."
No Brasil e em Angola se prestam cultos a Nossa Senhora cujos ícones a apresentam como negra... Nossa Senhora da Aparecida, por exemplo, que afinal, minúscula estatueta de cerâmica há anos arremessada ao solo e estilhaçada por um doente mental, restaurada por especialista italiano de grande nomeada na sua difícil arte revelou-se "branca" em sua origem artística, entendendo porém o clero da segunda maior basílica do mundo e a hierarquia da Igreja Catôlica que deveria ser repintada de preto pois era a santa negra o objeto do culto mais importante do Brasil e não a branca que fora antes de carvoeiros, como o exame químico revelou, a terem mantido por muito tempo nas proximidades de um forno de confecção de carvão vegetal. Em Angola, a Nossa Senhora da MUXIMA, também negra, cuja história nunca foi bem contada mas que rendia lucrativas peregrinações de luandenses aos fins de semana, para alegria e boa vida do nosso amigo pároco (hoje ex-padre e professor do ensino médio em Portugal) Alvarães que graças a isso possuía apartamentos na cidade e um possante automóvel DATSUN com rodas especiais... Benditas "imagens" que são idolatradas por crentes ignorantes dos verdadeiros fundamentos do Cristianismo dos primeiros tempos... porque proporcionam bem-estar aos que presidem a essas manifestações de fé inocente e crédula.
Sabendo-se dos hábitos consumistas e hedonistas dos negros em relação a vinho, costumes e preferências por certos bens, o que levava a freqüentes desvios de dinheiro ou de objetos com valor comercial, compreende-se por que foram aplicados desde o reinado de D. João II, aos chamados negros e negras do "ganho" que trabalhavam em regime de parceria para os seus amos e senhores, residindo embora, em não poucos casos, em casas distintas e procurando aforrar, do que ganhavam, dinheiro bastante para comprarem sua liberdade ou carta de alforria, certas providências reais que impunham sanções severas a quem, escravo ou não, se entregasse a libações alcoólicas ou ao comércio de bebidas espirituosas fora de horários pré-estabelecidos, aos que furtassem ou roubassem e ainda aos receptadores... das mercadorias ou valores ilicitamente desviados.